Nearshoring e Friendshoring: a Nova Rota das Cadeias Globais

 



O modelo de globalização que conhecemos nos últimos 30 anos — focado quase exclusivamente na redução de custos e na centralização da produção na Ásia — está sendo redesenhado. Eventos disruptivos como a pandemia de COVID-19, a crise dos semicondutores e as tensões geopolíticas entre potências globais revelaram a fragilidade das cadeias de suprimentos excessivamente longas e dependentes de um único polo.

Nesse cenário, dois conceitos deixaram de ser teorias acadêmicas para se tornarem imperativos estratégicos: o Nearshoring e o Friendshoring.

1. O que são esses conceitos?

  • Nearshoring: consiste em transferir a produção ou a prestação de serviços para países geograficamente próximos ao mercado consumidor final. O objetivo é reduzir prazos de entrega (lead time), custos logísticos e mitigar riscos de transporte transoceânico.
  • Friendshoring (ou Ally-shoring): é a prática de redirecionar as cadeias de suprimentos para países que compartilham valores políticos, democráticos e padrões regulatórios semelhantes. É uma estratégia de segurança nacional e econômica para evitar chantagens geopolíticas ou interrupções por conflitos diplomáticos.

2. Por que as empresas estão saindo da Ásia?

Segundo relatórios da OMC (Organização Mundial do Comércio), a resiliência tornou-se a palavra de ordem. O modelo "Just-in-Time" (estoque mínimo) está evoluindo para o "Just-in-Case" (estoque de segurança e diversificação).

Os principais motivadores são:

  1. Custo Logístico: a volatilidade dos fretes marítimos e a escassez de containers.
  2. Riscos Geopolíticos: sanções e guerras comerciais que podem paralisar operações da noite para o dia.
  3. Sustentabilidade (ESG): cadeias mais curtas emitem menos CO2 no transporte, alinhando-se às novas metas ambientais globais.

3. O Brasil como o "Porto Seguro" das Cadeias Globais

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estima que o ganho potencial de exportações para a América Latina com o Nearshoring seja de cerca de US$ 78 bilhões anuais. O Brasil, pela sua escala e diversidade industrial, é um dos maiores beneficiários potenciais.

Por que o Brasil se destaca?

  • Matriz Energética Limpa: em um mundo focado em descarbonização, produzir no Brasil utilizando energia renovável é uma vantagem competitiva gigantesca (o chamado "Green-shoring").
  • Segurança Jurídica e Diplomática: diferente de outros players globais, o Brasil possui um histórico de neutralidade e boas relações com os principais blocos econômicos (EUA, UE e China).
  • Proximidade com Grandes Mercados: a posição estratégica na América do Sul e a facilidade de acesso ao mercado europeu e norte-americano (via Atlântico) favorecem a logística.

4. Desafios para o Comex Brasileiro

Para que o Brasil deixe de ser apenas uma "promessa" e se torne o hub definitivo dessas novas rotas, o setor de Comércio Exterior precisa focar em:

  1. Redução do Custo Brasil: melhorar a infraestrutura portuária e ferroviária.
  2. Eficiência Aduaneira: digitalização de processos e ampliação do programa OEA (Operador Econômico Autorizado).
  3. Acordos Comerciais: Fortalecer o Mercosul e avançar em tratados de livre comércio que facilitem a entrada de insumos e a saída de produtos manufaturados.


Assim, o Nearshoring e o Friendshoring não são apenas tendências passageiras, mas uma reconfiguração profunda do comércio mundial. Para o profissional de Comex, isso significa uma mudança de mentalidade: não se trata mais apenas de "comprar barato", mas de "comprar com segurança e inteligência geográfica". O Brasil tem as ferramentas; cabe às empresas e ao governo pavimentarem essa nova rota.


Atualizado em 12/01/2026

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